Território miscigenado de Kallarrari

O ritual dos chrysantemos

O ritual dos chrysantemos


O Ritual dos Chrysântemos: Território miscigenado de experimentações literárias

por Paula Cajaty

O Ritual dos Chrysântemos é uma obra complexa, intensa, um livro que não se dá a classificações, tais são suas diversas camadas e profundidades de leitura. Tragédia shakespeareana e romance policial, ficção histórico-geográfica brasileira, thriller psicológico e suspense de identidade: Celso Kallarrari, em seu primeiro romance, profundamente brasileiro, sabe entremear esses múltiplos fios narrativos, sob a égide dos significados do crisântemo, divertindo-se com as incontáveis verdades que a literatura pode criar.

A trama-base inicia por Preambula, contando a história do menino Eurico e de seu amor por Poliana. As primeiras informações que sobressaem no texto referem-se à composição extremamente miscigenada de todos componentes da história, formando-se como uma babel multifamiliar. Essa miscigenação aparece nas histórias de cada um dos antecedentes do par Eurico e Poliana. Aparece, também, nas múltiplas vozes narrativas e nas tantas línguas que se unem para a tessitura de um só texto.

Nesta primeira parte, Kallarrari fala sobre pertencimento e exílio, herança e renegação, identidade e discriminação. Essas sensações são também criadas com a composição das linguagens: no livro, temos o latim, o guarani, o português, o espanhol, o siríaco, o japonês, e as línguas compostas dos territórios de fronteira, o portunhol e o guaranhol.
O protagonista possuía raízes sírias pelo lado do pai Euhana, e guarani, por parte da mãe Porãsy. Ele cresce na cidade brasileira de Ponta-Porã, fronteira-seca com o Paraguai, cidade-irmã de Pedro Juan Caballero, onde se é possível falar o portunhol e o guaranhol. O narrador percorre também a história dos avós de Eurico: a avó Juçara, índia da tribo Kaiowá, e o avô Jandira Terena, ex-pajé da aldeia Jaguaripê, pais de Porãsy, a índia cunhã- porã que seduziu o pai de Eurico. Do outro lado, teríamos Zaqueu, sírio, e Eurídice, holandesa, pais de Euhana, que chegaram a São Paulo quando os cristãos (católicos e ortodoxos) sírios e libaneses fugiram do governo otomano.

Aqui o narrador revela nas entrelinhas como alguns se pretendiam mais iguais que outros, numa eterna recriação da exclusão e da diferenciação. Em um território de origem complexa, composto de um povo miscigenado e imigrante, quem poderia se considerar de uma linhagem pura? Euhana era um brasileiro nato, sírio imigrado, fruto miscigenado de um sírio e uma holandesa. No entanto, sofre a reprovação familiar ao apaixonar-se por uma filha de índia, acabando exilado de São Paulo, em Ponta-Porã. Com Eurico, o mesmo se sucederia.

Conhecemos também os pais de Poliana, o amor supremo de Eurico: Massareuki, japonês que chega imigrado a Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e Celeuma, a mulher paraguaia por quem se apaixona.
Quem dá a chave do destino de Eurico é a avó-índia Juçara: “Usted vai tê el mismo destino que tu papá, kurumin. Tá vendo fio. É o diabo, a serpente infernal que se aproxima.”, ela fala para o neto. O jovem Eurico, da mesma forma que seu pai, sofre a reprovação familiar de Poliana. Massareuki, japonês, cultivava as tradições assim como os nobres crisântemos que fornecia para a funerária local, e considerava sua origem menos miscigenada que o amado de sua filha – “um mestiço sujo” – por este motivo reprovando o namoro.

Eurico vivia com os fantasmas da não-conformação ao modelo esperado para o consorte de Poliana. Ela, por sua vez, convivia com a tristeza de assumir um amor e um futuro que seria renegado pela família. No entanto, seus votos foram feitos pela eternidade. A partir daí, sentimentos, desesperos, tristezas, suposições, pressentimentos, interpretações. A eterna desaprovação do amor, a desaprovação do outro, do diferente, do não-aceito.

Aqui, o crisântemo mostra sua face polimórfica: há mais de 100 espécies e 800 variedades, com aproximadamente 300 pétalas a cada flor, pertencendo à família conhecida por Compositae. É uma flor miscigenada, misturada, de beleza extrema, porém sem linhagem nobre, assim como todos os personagens do livro, brasileiros de múltiplas composições.

Em Cenarius, segunda parte do livro, entramos no plano geográfico da obra. Um plano geográfico intrincado, que reúne Ponta Porã, Pedro Juan Caballero, Damasco, Mato Grosso do Sul, São Paulo. Um plano histórico, que resgata os primórdios da criação de São Paulo, das ferrovias para o interior selvagem do país ainda agreste. Os píncaros em que os apaixonados se encontram e se trocam promessas. Os pontos baixos onde duvidam da sinceridade e da pureza dos sentimentos confessados. Os locais-chave do romance: onde Eurico perde seu pai e, com ele, a sanidade mental; onde se apaixona e se compromete com Poliana, onde os dois juram um amor eterno no alto dos morros de suas próprias existências – a Serra de Maracaju e o Pico do Jaraguá.

Nesta segunda parte do livro, os crisântemos mostram sua face nobre: estão na Avenida Paulista, na Casa dos Chrysântemos, construída em 1935 e pertencente ao poeta Idomeu Chrysântemos e sua família. Representam nobreza e felicidade, colorindo os espaços por entre plantas e árvores genuinamente brasileiras, palmeiras, pinheiros e paus-brasis.

Em Epiloga, última parte, apresentam-se os crimes dos crisântemos: a morte de Poliana, cercada de inconsistências e caminhos de investigação, por onde Mckinleu, o delegado de origem canadense, ora se encontra e ora se embrenha, perdido como num labirinto sem saída. Depois se seguem outros seis crimes semelhantes nos parques de São Paulo. Todos eles reproduzem algo de maligno e belo, algo de sagrado e mágico. Aqui se sobrepõem diversas histórias: a do serial killer perseguido por Mckinleu, a partir das provas e indícios, quase todos falhos e incompletos; a de Eurico, desesperado com a possível traição de Poliana; a de Alfeu, o amigo enamorado de Poliana que não se conforma em perdê-la; a da própria Poliana, possivelmente suicida diante dos dissabores em sua família, em sua vida e em sua saúde.

Aqui, o autor explora a inconsistência dos sentimentos, a flutuação dos humores, o desamor, o ódio, o ciúme, a parcialidade das verdades humanas. Nesse momento, o crisântemo se apresenta como um componente de desejo divino: ao simbolizar felicidade e uma vida cheia e completa, encontra-se despetalado sobre o “corpus” de Poliana, como uma promessa desfeita, uma vida exaurida, como a tentativa de atingir em espírito o que não se pôde alcançar no mundo terreno.
Os crisântemos brancos significam ainda verdade e sinceridade, e por isso se encontram permeando a obra de Kallarrari: só há verdade em espírito – a verdade carnal é sempre parcial, fugidia, mutante, incontrolável. As pétalas da flor são muito usadas para embelezar os corpos mortos que serão sepultados, pois também representam um mediador entre o céu e a terra, entre a vida e a morte. Eurico e Poliana, sempre trocando promessas sobre os píncaros do mundo, buscavam alcançar a felicidade dos céus. No ritual, os crisântemos permitem a passagem das sete virgens, os sete dias em que Eurico buscou sua amada, a passagem de Eurico da lucidez para a loucura, e a consagração de Poliana aos céus.

Nesse ponto, o narrador também se contradiz e caminha no vai e vêm próprio da reconstrução sempre imperfeita do passado, pois “Ao escrever, eu me lembro. Lembro-me de detalhes menores. Reconstruo Euricus. E, ao narrar, eu invento o que não ouvi e reinvento o que sei”. Eurico se reencontra com Poliana no Cemitério da Consolação, e tenta conhecer, através do espectro de sua amada, a verdade da história. No entanto, não há saída possível no plano material: a verdade só pode ser conhecida em espírito.

Após fecharmos o livro, é impossível dizer quem matou Poliana, se é que alguém a matou. Voltamos às suas páginas, e reencontramos pistas, reflexões, como Mckinleu à procura de significados. É impossível dizer se os demais crimes do crisântemos foram realizados pelo mesmo assassino de Poliana, se ele existiu. Impossível dizer se Mckinleu prendeu Eurico, ou se foi preso por ele. Talvez o autor queira, nessa trama textual, que o leitor dê, à sua ótica, a resolução final.

O que é possível então dizer de “O Ritual dos Chrysântemos”, é que estamos de frente para um ritual que se executa, geração após geração, nação atrás de nação, desde tempos imemoriais, quando os homens despetalam crisântemos sobre a inocência, em prejuízo de seus significados de amizade, amor, simplicidade, inocência e vida exuberante – um ritual que despetala a própria beleza divina, afirmando-se uma suposta linhagem humana superior e nobre, quando a nobreza humana existe exatamente no Compositae, a partir do desabrochar intenso das centenas de pétalas coloridas, em sua multiplicidade de cores e formatos, nas variedades infindas de espécies e gêneros, da polimorfia e polifonia de seus espécimes, que embelezam e cobrem a terra.

Clar(ic)eando

Clarices, de Luciana Bollina

Clarices, de Luciana Bollina

resenha a Clarices, de Luciana Bollina (Philae, 2013)
por Fernando Miranda

O título, a recente recepção mais ampla e alguns trechos da obra de Luciana Bollina nos remetem, claro, a Clarice Lispector. O livro, porém, vai muito além de referências à obra da autora de Laços de família. É esta recolha de contos, inclusive, a que me parece mais perceptível no romance de Bollina, dividido em microcapítulos que vão gerando, pouco a pouco, uma tensão em duas histórias paralelas: a de amor entre a protagonista Clarice, de apenas 19 anos, e o poeta Gabriel, e a familiar, em que a jovem artista plástica tem de lidar com problemas de sua irmã mais nova, em situação que atravessará, também, a mãe das duas.

 

A autora também costura breves reflexões sobre a arte, num tom que chega a beirar um certo neoromantismo, formando um contraponto com a história em si, fundada em atos cotidianos, fugazes, por vezes entediante para as personagens que os vivem, pois elas pretendem sempre mais, sempre algo que seja “maior”. No decorrer do romance, o leitor acompanhará as personagens, pela mão da narradora, a uma exposição da protagonista, a duas peças de teatro – o poeta Gabriel é autor de uma delas – e deparar-se-á com o cinema e a poesia, passando até mesmo por duas livrarias, em cenas cruciais para a história.

 

Escrito em linguagem simples, este romance poderia compor a bibliografia de escolas de ensino médio, pois, sendo acessível a jovens, os temas e as abordagens poderiam ser trabalhados em aula e mesmo fora dela, já que a leitura cativante atrairia leitores e leitoras. Se é possível ver traços de Bildungsroman (romance de formação) em Bollina, poderia afirmar, também, que este pode ser um romance de iniciação. O trecho em que é contada a história da “Maria de Pau”, por exemplo, pode ser lido dentro da tradição de lendas e histórias populares, com potencial para explorar diversos tópicos da atual socidade.

Obviamente, não proponho reduzir a obra a livro didático, pois justamente isto ela não é. Que os professores – e não apenas eles – fiquem atentos: para indicar e para ler.

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Um exímio leitor

Memórias de um leitor de poesia

– Memórias de um leitor de poesia, de Antônio Carlos Secchin

por Fernando Miranda

Antônio Carlos Secchin é uma referência nas Letras do país. Seja por seu trabalho como professor de Literatura Brasileira, na UFRJ, seja por sua atividade como bibliófilo, seja, também, por ser membro da Academia Brasileira de Letras, instituição de longa e controversa história. Além disso, é poeta, sendo Todos os ventos (2002) o seu livro mais reconhecido. A partir destas bases, ele se lançou a compilar artigos, discursos, depoimentos e entrevistas, em Memórias de um leitor de poesia (Topbooks, 2010).

Logo na abertura, Secchin deixa claro o modo como entende poesia, como a lê, como se relaciona com ela. É um posicionamento firme, de alguém que conhece sua matéria, alguém que passou boa parte da vida dedicando-se a pensar materialmente o poema, pesquisando suas variações não apenas de significado, mas sua arte de composição. Para jovens estudantes, a leitura deste ensaio pode evitar armadilhas ao longo do percurso acadêmico, independentemente de se seguir ou recusar a linha de Secchin.

Um ensaio de destaque, entre os quecompõem no livro, é, a meu ver, “Presença do Parnaso”. Secchin assume uma postura menos estigmatizada do referido período literário, provocando os leitores a deixarem de lado algumas amarras críticas impostas aos poetas parnasianos. O crítico propõe uma defesa inteligente, concentrada no texto – no poema, portanto –, sem, por isso, cair numa espécie de formalismo. Ou seja: não se ignoram o ambiente social e todo os entornos; simplesmente, abandonam-se as leituras pre-concebidas.

O discurso de posse na Academia Brasileira Letras, proferido dia 5 de agosto de 2004, e apresentado sob o título “A interminável música”, permite não apenas percorrer a história da cadeira 19, mas, percebendo o fundo histórico e os posicionamentos políticos, pensar neste país que até hoje não soube diminuir, de forma efetiva, suas contradições.

A escrita elegante de Secchin tem a dizer. Bem mais do que alguns de seus colegas de academia.

Incrivelmente perto

Incrivelmente perto

– Extremamente alto & incrivelmente perto de Jonathan Safran Foer (Rio de Janeiro: Rocco, 2006)

por Fernando Miranda

A história da literatura está atravessada por diversas apropriações, por intertextos, referências de uma obra à outra, ou seja, uma história que não é nem linear, nem circular, mas superdimensionada. Este é o caso do livro do jovem autor estadounidense Safran Foer (1977- ), que, desde o início, nos indica que estaremos próximos a O Tambor, de Günter Grass, publicado originalmente em alemão, em 1959. Listo alguns dos pontos de encontro: o protagonista, narrador na maior parte do romance, se chama Oskar; é uma criança prodígio, caracterizada mais nos elementos da literatura fantástica que do realismo; toca um instrumento de percussão – o de Grass, o tambor, o de Foer, um pandeiro; vive um trauma – o de Grass, o pós-guerra, o de Foer, a perda do pai, no atentado de 11 de setembro, quando o World Trade Center, em Nova Iorque, foi atingido por aviões. Referências a Dresden, cidade natal de personagens de Extremamente alto…, também nos remetem simbolicamente à cidade alemã, bombardeada durante a Segunda Guerra. Em Foer, ainda é preciso considerar o sobrenome do protagonista: Shell, que em inglês significa “concha”, ou, no uso militar, “granada”, “bomba”.

Safran Foer, no entanto, logo se mostra como autor maduro, apesar da pouca idade – o original em inglês é de 2005, quando o autor tinha menos de 30 anos – e imprime suas próprias marcas. Faz do livro uma obra a ser assistida, não apenas lida. Na conjunção com fotos e recursos tipográficos, o leitor é convidado a pausas de leitura, como se estivesse diante de um filme. A própria cena final do livro nos dará a certeza desta exigência do leitor de Foer: se ele passar por cima das imagens, que muitas vezes interrompem o discurso no meio, estará pulando cenas, desobedecendo ao ritmo da obra.

A trama, como costuma ocorrer nas grandes obras, é simples: Oskar, após a morte do pai, encontra uma chave, guardada num envelope, em que se lê o nome “Black”. Obsessivamente, passa a procurar o lugar que poderia ser aberto por aquela chave, entendendo que se encontrasse o Black correto – sobrenome comum a inúmeras pessoas – sua angústia estaria resolvida.

Se a crítica norte-americana afirma que Foer consegue, magistralmente, transpor as emoções das personagens para o leitor, devo, então, reconhecer uma bela tradução do escritor Daniel Galera. Apenas a expressão “rachar o bico” soa um pouco fora de lugar, mas seria necessário ir ao original para tecer maiores comentários.

O Tambor permanece, mais de quarenta anos depois, obra forte. É este o provável futuro de Extremamente alto & incrivelmente perto.

O livro inspirou o filme “Tão Forte e Tão Perto”, com Tom Hanks.

A aura de valter hugo mãe

 
– Portugal, 0 – 5, valter hugo mãe (Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2009)
por Fernando Miranda

 

A coleção Portugal, 0, dirigida pelo poeta Luis Maffei, começou a ser publicada em 2007, quando o editor Ricardo Pinto de Souza ainda estava à frente da casa. O projeto traz ao leitor brasileiro poetas que começaram a publicar no final do século XX ou início do XXI, vozes de agora, portanto. Pedro Eiras, cuja poética não se faz em versos, mas em dramaturgia, compõe o volume 4 da coleção. Os demais são Manuel de Freitas (1), Rui Pires Cabral (2) e Luís Quintais (3).

 

valter hugo mãe, grafado em minúsculas, como se convém, segundo o próprio autor, que aparece no quinto volume da série, é, sem dúvida, o mais familiar ao leitor brasileiro. Não pela sua obra em versos, tampouco pelo Prêmio Literário José Saramago, em 2007, atribuído pelo seu romance o remorso de baltazar serapião, mas pela sua presença na Flip 2011. O romance em questão e o nosso reino foram publicados, aqui, pela editora 34.

 

Segundo a prefaciadora da antologia, Monica Simas, “estamos diante de uma poética de recusa, de desafio não só à morte final mas à morte da linguagem em sua produção de sentido”. Este comentário parte de uma constatação, fazendo referência a Walter Benjamim, de que, desde o final do XIX, estamos “em um tempo de fim da ‘aura’”, o que relegaria ao poeta o lugar de mais um entre todos os outros humanos, o que não significaria “um rebaixamento da sua figura, mas uma exaltação do outro”. Estas considerações, que por si já mereceriam um longo debate, ficam como faíscas, pois é preciso, nesta resenha, passar a outro estágio, isto é, ao do confronto com os versos.

 

Citarei apenas um poema, tentando leitura breve, convidando o leitor desta resenha a buscar os demais versos do poeta. Escolho “Poema que explica a morte”, originalmente publicado em livro de maldições, 2006.

 

três vezes seguida um homem se sentiu morrer,/

por cada ocasião em que perdeu o amor. depois,/

morrendo deveras, o homem sentiu pouco. ape-/

nas que voltava a um lugar conhecido ou que,/

mais certo, desistia de morrer novamente.

O poema é dedicado “para o valter hugo lemos, fardo que carrego”. Aqui, encontra-se parte do comentário de Simas, pois é o poeta com seu sobrenome fictício, “mãe”, a dedicar um poema ao não poeta, “lemos”, sobrenome verdadeiro de valter hugo. A provocação, porém, poderia ser também provocada: por que o “verdadeiro” não se grafa com maiúsculas? Nada em hugo mãe se grafa com maiúsculas, como se nota no “depois”, no segundo verso, que vem após o ponto final. Seria esse o rebaixamento, essa perda da “aura”? As três mortes sentidas pelo homem vivo eram simbólicas, estavam, portanto, no ambiente da linguagem, este do poeta e da comunicação, da relação do ser humano com o mundo. A morte “deveras” é a do corpo, que, se permite a volta a um lugar conhecido, não permite, no entanto, mais mortes simbólicas, a não ser aquela que permanecerá para o hugo lemos, para mim, para qualquer indivíduo que esteja vivo: a lida no texto.

 

Existe, então, algo que, sim, difere o poeta dos demais, sem que isso seja indicador de superioridade ou coisa semelhante. Porque o lemos morrerá, definitivamente, enquanto o mãe – nome bastante simbólico, digamos de passagem – permanecerá “até antes do fim do mundo” – frase que acompanha todos os livros da editora Oficina Raquel. Existe, também, uma performance de hugo mãe, ao grafar-se com minúsculas, ao apresentar-se como outro.

 

Existe, ainda bem, alguma “aura” que ainda resiste à pasteurização – sobretudo a proposta pelo mercado. Não sabemos até quando resistirá. Talvez, até pouco antes do fim do mundo.

De pernas para o ar

De pernas para o ar

– por Fernanda Freitas –

– De pernas para o ar: minhas memórias com Garrincha / Gerson Suares. – Rio de Janeiro : Oficina Raquel, 2013.

Quem melhor que Gerson Suares para escrever sobre o Mané Garrincha? Além de muito bem preparado para tal feito – afinal já ganhou o concurso de contos realizado pela UERJ (1995) e uma menção honrosa no concurso literário de poesia e contos do servidor público (1992) – Gerson foi enteado do craque e foram suas recordações que deram vida ao livro “De pernas para o ar: minhas memórias com Garrincha”.

Em mais de 50 contos, Gerson narra seus bons e maus momentos ao lado do ídolo, que, no caso do autor, era muito mais que isso. Dando início à narrativa com ‘O teste do torto’, Gerson conta o desafio que Mané enfrentou em seu teste para o Botafogo, no qual surpreendeu a expectativa de todos e deu um show de desempenho em campo, sendo contratado no ato.

Como é do conhecimento de muitos amantes do futebol e de todos os que tiveram a honra de ver Garrincha jogar, ele era um homem muito espirituoso e carismático, o que podemos claramente perceber na primeira parte do livro, com crônicas divertidas sobre finais pela seleção brasileira, jogos no gramado de um presídio, entre outras partidas espetaculares.

Na segunda parte, ‘Nem tudo é festa’ vê-se o outro lado do jogador que, embora bondoso e muito querido, foi cercado por pessoas falsas, que o tratavam com toda a cordialidade quando estava no auge. Porém, nas dificuldades, Garrincha só podia contar com os amigos e parentes que havia deixado na cidade de Pau Grande: só esses eram capazes de lhe dar apoio e alegria quando precisava. Ainda nessa parte há algumas crônicas que demonstram o grande coração de Garrincha, ingênuo e admirável. Ao fim desse bloco, na crônica “Um filho, homem” Gerson escreve com muita sensibilidade e fala da maior fraqueza do Mané, o álcool, vício que o levou a morte.

Para não fechar com melancolia, a terceira parte “Muitas faces de Mané” traz histórias mais pessoais e inusitadas, alguns contos cheios de humor e outros de nostalgia que demonstram o carinho com que o autor relembra de Garrincha. Uma bela homenagem prestada para um homem tão afável e admirado.

A maneira com que Gerson escreve, transcrevendo as falas do jogador junto às suas reflexões a respeito, dão mais vida aos textos e há algo que podemos concluir após a leitura: o jeito gozador e despreocupado de Mané seria mal visto nos dias atuais, onde os jogadores não podem perder um treino e são extremamente cobrados. E era exatamente isso, essa leveza indescritível, que fazia de Garrincha um artista da bola.

Gado Novo

Gado Novo

– por Fernando Miranda –

– Gado Novo. Thomazi, Guille. 7Letras: Rio de Janeiro, 2013.

O livro de estreia de Guille Thomazi, Gado Novo (7Letras, 2013), surpreende. E os motivos são vários, a começar pela idade do autor – 27 anos. Não que os números devam determinar qualidade, ainda mais numa época em que se busca realçar, às vezes com certo exagero, a (jovial) idade dos escritores. Porém, que Thomazi, debutante, apresente tal obra, é de chamar atenção e, como costuma ocorrer em casos assim, gerar expectativas.

A novela, dividida em cinco capítulos, aborda temas fortes e que costumam ser espetacularizados, como a violência, o assassinato, o sofrimento da perda. Thomazi, no entanto, dispensa esses artifícios fáceis e talha a linguagem, secando a obra ao máximo e deixando ao leitor um provocativo trabalho de montagem. Não há apelação, sentimentalismos vulgares; tampouco, uma crudeza vazia, mero relato, encenações em cadeia. Adequando as vozes a cada personagemnarrador, através de cuidadas nuances sintáticas, o autor explora um antigo elemento da literatura – o monólogo interior – para montar uma história que não se atém a simples psicologismos, ao conjugar esse recurso com descrições muito próximas às de roteiros de cinema. Não parece acaso, portanto, que seja essa justamente a formação acadêmica do autor, como se pode saber pelas informações contidas na orelha do livro.

Outro recurso estilístico que merece destaque diz respeito ao fato de os personagens não serem apresentados pelo nome, mas aparecerem com apelidos (Paraguay, Forasteiro) ou simplesmente identificados por suas ‘funções’ (patrão, índio, mãe, marido, etc). O único nome próprio presente no livro é o de Isabel, cuja voz nos é desconhecida. O lugar tampouco é mencionado, embora aspectos naturais, costumes e uma proximidade com o idioma espanhol nos permitam pensar em região de fronteira, possivelmente vizinha ao Paraguai, pois é de lá, sabemos, que vem o tereré, uma espécie de chimarrão frio, muito consumido naquele país.

O livro fecha com um dos personagens centrais e seu cachimbo, em cena bastante simbólica, que, por razões mais que óbvias, não citarei aqui. Pois é assim, deixando espaço ao leitor, que termino essa brevíssima resenha, enquanto espero os próximos livros de um autor que já demonstrou estar consciente do difícil trabalho que é compor.

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