Raul

Raul

– Raul. Bartolomeu Campos de Queirós, RHJ editora, 2007, 1ª Edição.


por Dilma Bittencourt


Brincadeira cósmica

Posse. Amor. Fronteiras do querer, do admirar. “Raul”, de Bartolomeu Campos de
Queirós, uma brincadeira. Uma brincadeira que brinca com as palavras numa lógica
matemática.
Onde as palavras se cruzam nas ações e nos simbolismos. “O luar ruava”.
Uma veia cósmica que une as palavras, como se houvesse uma comunhão de ações.
Como se todas as ações se pertencessem, nas letras, sons, ritmos e inversões das palavras.
E comungassem numa relação de união, de fusão cósmica. Não em um ponto singular e
único, mas, sim, num vazio que se preenche numa circular imagem do constante que se
transforma.
“Raul é luar”.
é lua
é bola
é belo”
Sem ponto, sem vírgula, com um único adjetivo que o faz substantivo.
E o “fato do luar ser o Raul” traduz o encantamento do ser e o estar em Raul.

Mário

Mário

por Dilma Bittencourt

– Mário – De pedras, conchas e sementes. Bartolomeu Campos de Queirós. Global Editora, 3ª edição, 2009.


Mário, Menino Quântico

Quem seria Mário? O autor ou o seu personagem? Seria o seu nome o seu esconderijo?

“Mário era feito de águas”, diz Bartolomeu. Era vida, renovação e movimento. Mário era quântico, era tudo, mar, ar, rio, infinito e vento. Mário era marinheiro sem barco navegando nas heras, secretamente como um passageiro paciente. Bebendo sua água. Sua poesia, cor e vida.

Toda inspiração de um poeta que exala a palavra através da emoção e do seu sentimento. Seus versos brotam das pedras, conchas e sementes.

Em 1ª pessoa, Bartolomeu Queirós encontra a sua voz na 3ª, em Mário. Se esconde num ninho fechado, lacrado, correndo atrás de um pássaro que o faz livre.

E se encontra com a infância, como se tirasse do baú as lembranças. Num ar primaveril, vai poetando as heras que crescem com os seus versos. E se revelam sábias, se desdobrando pacientemente e se transformando em ritmo, harmonia na palavra do menino-poeta.

Mário? Bartolomeu? Bartolomeu e Mário? Mário e Bartolomeu?

Tudo por um feriado

Tudo por um feriado

– Tudo por um Feriado. Thalita Rebouças –  Rio de Janeiro: Rocco, 2007

por Fernanda Freitas

Há uma década, Manu, Gabi e Ritinha são um trio inseparável, vivem uma amizade linda e cheia de companheirismo. Agora elas ainda contam com Suzaninha, a mais nova amiga que se juntou ao grupo.

Viviam juntas, se falavam todos os dias, dividiam os segredos, fofocavam, riam, como qualquer amizade deve ser, mas, a transição da infância para a adolescência muda muitas coisas e os namorados principalmente. Ritinha sempre criticou as menininhas bobas e melosas que ficavam penduradas no telefone, falavam com aquela vozinha de bebê e pior, se afastavam das amigas, mas quem diria? Agora ela é que nem elas. Está há sete meses com Leandro, seu primeiro namorado, e eles não se desgrudam nenhum minuto, claro, isso abalou sua reação com as amigas.

Com a chegada do carnaval as meninas tiveram a idéia de viajar juntas, aproveitar o feriado para colocar o papo em dia, relembrar os velhos tempos e aproveitar os poucos momentos que conseguem passar umas com as outras. O lugar escolhido foi o sitio da avó de Suzaninha, em Minas Gerais. Elas viram fotos do lugar, que parecia ser lindo, um paraíso, estavam que era pura animação. Mas para decepção delas o sitio já não era mais como antigamente, a piscina estava suja, a casa estava feia e o mato nem se fala, parecia que nunca tinha sido cortado. Só que isso não foi problema, pois se dedicaram a dar um jeito trato no lugar, cuidaram de tudo, para a alegria de Dona Hemengarda, avó de Suzana.

Com tudo certinho, o plano era curtir um feriado tranqüilo, só entre elas, tomando banho de rio, vendo o pôr do sol, e assistindo filmes a noite toda. Só que aconteceu uma mudança drástica no roteiro. Após o convite tentador de um menino, que Manu conheceu na padaria, para ir ao baile do Jóquei Clube, a idéia de um feriado sossegado foi esquecida e elas resolveram curtir, afinal era carnaval.

Em meio aos passeios, bailes e barzinhos, muitas coisas aconteceram, algumas boas, outras nem tanto. As meninas se meteram em uma confusão com o garoto mais arruaceiro da cidade, pra piorar, filho do prefeito, e achava que podia tudo. Mas souberam curtir bem a viagem, dançaram bastante, se divertiram e o mais importante, voltaram mais unidas que nunca.

É uma história deliciosa, que fala da amizade inocente, desde a infância, meninas que cresceram juntas, e agora na juventude, apesar de um desentendimento ou outro, estão buscando maneiras de evitar que se afastem e manter vivo esse amor quase fraterno.  Thalita Rebouças faz sucesso entre os adolescentes, tem uma linguagem bem moderna, leve, que agrada facilmente. Ela fala de assuntos do cotidiano da juventude, principalmente do mundo feminino: Meninos, ficadas, escola, festas, família, é bem provável a leitora se identificar com alguma das personagens.

A cobra curandeira

Cobra curandeira

A literatura que fala lendas

por Rosane Villela

Nyangara Chena: a cobra curandeira. Rogério Andrade Barbosa & ilustração Salmo Dansa. Ed.  Scipione, 2006.

 

A literatura que fala lendas fala do universal. As lendas respiram através da contação transmitida através dos tempos. Uma narrativa fantasiosa que acorda as raízes de um povo através da oralidade. Se a oralidade morre, a lenda é esquecida. E se ela é esquecida, a identidade de um povo também pode se perder.

Tradição, ética, educação, fazem parte de qualquer povo que se preze povo. Assim como a palavra que ele utiliza para manifestar-se. Na palavra o povo se diz, se conta, se resolve, e é conhecido por outros povos. E as lendas são um dos meios para que a palavra o personifique, camuflando, em fatos fantasiosos, a sua história e os seus valores.

Rogério Andrade Barbosa é exímio conhecedor das inúmeras lendas que inundam os países da África. Como escritor, alia a sua vivência de ex-professor voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau e a experiência de pesquisador das histórias do fabuloso universo africano à habilidade de contador de histórias. Premia a oralidade em função do universo das lendas para que a cultura e a tradição dos lugares a que elas se remetem nos sejam transmitidas.

Na obra Nyangara Chena – A cobra curandeira, Rogério conta a história de uma cobra que tem, como o próprio título diz, o poder da cura. Esta lenda mais encanta do que causa estranhamento e o autor, hábil, consegue nos conduzir para o maravilhoso desta hipótese que gira com as personagens até o fim de seu texto. Então, o que é fabuloso vira realidade ante os nossos olhos. A realidade de um povo, o xona, que viveu no interior do Zimbábue. Com os seus valores éticos, a sua identidade cultural, e a sua memória.

As ilustrações primorosas de Salmo Dansa trazem, ainda, maior prazer, ao proporcionar uma outra possibilidade de leitura: a de sua arte. Através da presença constante da cobra nas páginas do livro, ele oferece ao leitor a sensação de suspense, envolvendo-o numa expectativa prazerosa do encontro com o animal, um ser ainda invisível no desenrolar da história, mas, ao mesmo tempo, visível aos nossos olhos e tão próximo de nós. O medo face ao gigantesco animal, a expectativa do encontro e a alegria pela solução encontrada juntam-se, assim, ao texto de Rogério Andrade Barbosa e tornam o leitor um co-participante da história.

Nyangara Chena – A cobra curandeira, selecionada para a Bienal de Ilustrações de Bratislava 2007, faz parte do Acervo Básico 2007, na Categoria Reconto, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, assim como de seu Catálogo da Feira de Bolonha 2007.

Corda bamba

Corda bamba

“O vazio que grita”, por Rosane Villela

– Corda bamba. Lygia Bojunga. RJ: Casa Lygia Bojunga, 23ª ed., 10ª reimp., 148 pgs.

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Qual a expectativa de leitura que uma obra com o título Corda Bamba produz? Entre a fantasia desejada de Maria — uma menina de 10 anos criada no circo com os pais —, e a realidade repentina e crua de sua vida órfã, no apartamento da avó materna — uma senhora da sociedade, fútil e repressora —, Lygia Bojunga se apodera dos recursos da língua para transformar o fio condutor da sua história, a corda bamba, em matéria-prima de sua criação artística e aventura estética.

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Numa narrativa fluida e entremeada de diálogos coloquiais, a autora, com sensibilidade, humor saboroso e ironia pertinente, coloca em cena os personagens e transgride o caminho comum. Explora os desvios, os atalhos e as trilhas desconhecidas e faz com que a realidade invisível que os sobrevoa comunique.

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Comunique pela troca de sentidos, de significados, num vai-e-vem contínuo entre luzes e sombras, avanços e recuos. Em escritura de mobilidade circular, como o arco de Maria, que a equilibra. Para que as pontas do passado e do presente na corda de sua história, a leve de encontro a si própria.

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Movimento de acesso ao subconsciente de Maria, ressignificado pelo reforço dos símbolos: a corda, onde ela se sustenta com o arco, e que a faz mover-se, pelo sonho e fantasia, em direção ao enfrentamento do trauma; a janela com arco — diferente de todas as outras —, portal de entrada a sua história; o corredor, mergulho que a conduz às portas  adormecidas de seu subconsciente. Portas pintadas de apenas uma cor, simbolizando fatos e emoções diferenciados de sua vida; e uma porta diferente de tamanho e de feitio, com uma porção de pinceladas, que abre para um quarto vazio. O vazio onde, finalmente liberta, Maria lançará as escolhas de sua vida, para a construção e reconstrução de sua identidade.

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Qual a expectativa de leitura que uma obra com o título Corda Bamba produz? Uma expectativa que se ultrapassa, e muito, pela apreensão dos ruídos e sinais vazios em linguagem simples e sincera. Sem prescrições, nem preconceitos reguladores.

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Malabarista das palavras, Lygia faz a sua arte. Acolhe o vazio que flutua ao redor de Corda Bamba e o preenche no leitor para que ele mergulhe e inicie a sua própria trajetória. De, também, equilibrista, co-partícipe da história.

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El mundo en silêncio

O mundo em silêncio

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– O Mundo em silêncio / El mundo en silencio. Helô Bacichette, Marô Barbieri, Ignácio Martinez. Ilustrações de Zambi. Tradução para espanhol de Marte Fros Guerrero. Tradução para português de Marô Barbieri. Caxias do Sul: Maneco, 2010.

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Se não tivesse uma história tão boa, ainda assim seria uma ótima ideia a publicação de livros em edição bilíngue para adolescentes e jovens, considerando a urgência no domínio das múltiplas linguagens num contexto globalizado, e considerando – ainda mais – um mundo com distâncias em progressiva redução em virtude da expansão da internet.

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Mas o livro, além de tudo isso, tem uma história genial. Bem ao estilo da “História sem fim”, onde o mundo da fantasia está sendo tomado pelo vazio, “O mundo em silêncio” traz a história de um bruxo que suprime as três classes das palavras e as condensa todas em um medalhão, destruindo-o em seguida em três partes, e jogando cada parte em locais longínquos e inacessíveis da Terra.

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O feiticeiro havia descoberto que as pessoas pensam com as palavras – e ele não queria que ninguém mais pensasse, cantasse, sonhasse ou escrevesse. Ele queria o vazio dentro da cabeça das pessoas, para que fosse mais fácil dominar o mundo.

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Quem ouviu todo o plano foi Rafael que, mesmo já sem poder falar, convocou Iara e Lila, suas amigas, para que os três iniciassem a jornada em busca das partes do medalhão.

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É assim que os três amigos enfrentam diversos perigos, adversas condições da natureza e a ira do feiticeiro, para que consigam cumprir sua missão e trazer as palavras de volta. Durante essa busca, emudecidos e com os pensamentos cada vez mais confusos por conta da ausência das palavras, Rafa, Iara e Lila fazem viagens incríveis, atravessando lugares maravilhosos, se aproximando de animais selvagens e de povos que habitam terras distantes e desconhecidas há muitos milhares de anos.

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Escrito a seis mãos, o escritor uruguaio Ignacio, e as brasileiras Marô e Helô (que também escreve no blog Os elos do conto) conseguem dar vida aos personagens Rafa, Iara e Lila, em uma narrativa tão bem integrada, em uma voz tão uníssona, que o livro parece ter sido escrito por uma só pessoa. Ao mesmo tempo, o trabalho coletivo traz uma riqueza ímpar à narrativa e aos personagens, com as vivências e ideias de cada um dos três. Para finalizar, o capricho da edição bilíngue facilita o ensino do espanhol apresentando leituras paradidáticas adequadas para a idade dos estudantes do ensino fundamental II, cujo currículo tem sido alargado para abranger não só o inglês, como também o espanhol.

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Menina-menina

Menina menina princesa de lama

Menina menina princesa de lama

– Menina-menina, princesa da lama – Villela, Rosane. Ilustrações Giselle Vargas. São Paulo: Paulinas, 2011 (Coleção Cavalo-Marinho Série Con-verso)

A Menina Princesa da Lama conta da sua vida na fazenda, entre um gramado cheio de rosas, um curral cheio de bois, e muitas lembranças da infância, quando corria para pegar tangerina que rolava do morro, subia na jaboticabeira e brincava na lama.

Essa vida de menina do interior se abre cheia de cheiros e sentidos, cheia de uma liberdade cada vez mais rara. A princesa de lama gostava dos animais e tinha liberdade para correr e sonhar com cavalos-marinhos, cometas e carneirinhos.

Essa princesa sabia ser muitas meninas em uma só: menina-lua e menina do laço de fita, transitando entre os tantos espaços públicos e privados da infância. Quando virava menina-de-rio sentia uma paz e a liberdade para percorrer a mata, admirando a natureza que cercava o fluxo das águas.

O tempo foi generoso para essa menina vestida de mil fantasias, que sabia ser princesa da lLama, estrela-menina, menina-de-rio. O tempo também não a deixou esquecer suas memórias da infância, o cheiro da fazenda ou do gosto do leite fresco saído na hora.

Rosane Villela dá vida a uma menina feliz, repleta de sonhos e com muita simplicidade, que cresce levando suas boas lembranças da juventude. As ilustrações de Giselle Vargas dão mais brilho a história e guiam à imaginação do leitor, que viaja com a aventura dessa menina, que pode ser tantas.