Briga de jogo

Vinte anos que não se viam, depois que brigaram feio e Maurinho não apareceu mais na quadra do campo baldio. Image

Aquele lote vazio escondido por trás do quarteirão de prédios era a nesga de verde onde aqueles dez garotos se reuniam nas tardes mornas das férias, onde aqueles garotos aprendiam a ser homens. Não tinha grama cortada rente, mas era campinho mesmo assim, de terra e musgo, na vontade deles todos.

Quem inaugurou o campo foi Marcão, que fugia dos livros para jogar o dia inteiro. Só mesmo sua avó Dilma conseguia interromper o futebol daquele menino. Foi ele quem primeiro trouxe os batentes de madeira e os pregou do jeito que pôde, marcando dois gols.

As faixas da área foram pintadas com a cal que o Maurinho trouxe da loja de tintas de Dona Lídia, sua tia-avó.

Quando não estavam treinando embaixadinhas, Marcão e Maurinho ficavam no mesmo time, apesar dos resmungos dos rivais. Marcão era atacante e Maurinho armava os lances para o gol certeiro e a vitória invariável. O abraço era suado, iluminado, sempre a sensação de que juntos ganhariam o mundo com a bola.

Aconteceu no ano em que fizeram treze anos. Uma molecagem, como dizia vó Dilma, mas depois do lendário desentendimento nunca mais se encontrariam em campo.

Furioso com a bola mal passada e a primeira derrota para o time adversário em anos de reinado no campinho, Marcão não soube perder. Exagerou e, no fogo do suor, dos hormônios que já lhe davam certas audácias, repudiou o erro: – Sabe porque a gente perdeu? Sabe? Sabe? É que você tem inveja de mim, seu merda. E deu as costas, com ódio, varejando a bola no chão.

Um passe errado e o time inteiro ouviu o tilintar da amizade partida, espatifada no chão batido de barro e mato, junto da bola rolando devagar. A solenidade da voz cheia e clara, vibrada com ódio e desprezo brandindo sobre o silêncio covarde e inerte dos outros nove.

Maurinho ainda ficou um tempo parado ali, como que suspenso, os olhos marejando perdidos, sem rumo. Não sentia mais nada além do seu joelho direito que doía, latejando como se explodisse, no mesmo ritmo do peito e da cabeça toda. Não ouvia mais nada além do eco dos gritos de Marcão. Do atacante. Do melhor jogador do time. Saiu dali humilhado e manco. Desolado. Nunca mais voltaria ali, não para o vexame, para a desonra de ter que olhar novamente nos olhos daquele a quem admirava tanto, do irmão que sua mãe não lhe dera.

A partir de então, ele se trancou no estudo. Foi ser o Doutor Mauro Finnegan, médico ortopedista e preparador físico especializado em práticas desportivas: ótimos clientes, os clubes, e a certeza do trabalho infindo com os atletas.
Marcão sumiu de vez do bairro quando completou dezoito anos. Deixou o colégio e vó Dilma para trás. No início foi jogar na Irlanda como as meninas do bairro contavam, mas depois se perdeu nos cantos do mundo. Sem estudo, como queria: bola o dia inteiro, namoradas e dinheiro a balde.

Numa coincidência assustadora e milimétrica, se encontrariam aos 32 anos, no exato mês em que brigaram, há exatos vinte anos, num programa de entrevistas onde o assunto era a importância da supervisão ortopédica no preparo do atleta.

Alguma ampulheta misteriosa contou o tempo dos dois, só podia.

Marcão havia se recuperado de uma lesão na perna com um tratamento de crioterapia australiano e viria jogar no Brasil, de passe comprado. Doutor Mauro trazia a mesma novidade para seu consultório de São Paulo. A coordenação do programa quis os depoimentos do médico e do jogador, enquanto noticiava os avanços científicos da medicina e sua importância no futebol brasileiro.

A princípio, sequer repararam a escalação da entrevista, antes de entrarem no auditório da gravação: Doutor Finnegan e Marcos, foi o que constou na divulgação do programa.

Viram-se ali mesmo, ao vivo, em frente às câmeras, lívidos de surpresa e constrangimento, uma falta de sangue a esfriar o corpo num suor gelado, os sentidos aguçados pela tensão. Será que ele me reconheceu?, a pergunta rondava ambos.

Souberam disfarçar o clima quase insuportável, de si mesmos e da platéia de ocasião que batia palmas invariavelmente, e ficaram aliviados que a pesquisa jornalística não tivesse ido além da pauta médica. Só eles dois sabiam da antiga amizade e da ruptura brusca, além de vó Dilma e Dona Lídia, que àquela altura assistiam à entrevista, lá do interior de Minas.

Os dois se mediram um pouco, de soslaio, até sentiram vontade de perguntar alguma coisa, mas estranhamente o assunto faltou, a voz deu um nó cego e saiu apenas um cumprimento grunhido e indecifrável enquanto apertavam as mãos, ainda no set de gravação. Insuportavelmente estranhos.

E se despediram, desse jeito, desviando o olhar e sorrindo sem vontade. Sem saber se a ampulheta misteriosa contaria mais vinte anos para outro encontro. A mágoa esmaecida lá atrás quase nem doía.

 

Felizes para sempre

O casamento foi por interesse. Preto no branco. Cartas na mesa, mas com doçura.

Conheciam-se do café-da-manhã na confeitaria. Gilberto, 75 anos, sabia que não lhe restava muito além de remédios e exames. Juçara, 48, já estava fora dos sites de relacionamento há meses, por absoluta ausência de candidatos ao seu perfil. Era a garçonete da loja.

De fato, para ele não havia necessidade de que fosse enfermeira: no mínimo, precisava de higiene e polidez para cuidar da casa, confiança para fiscalizar os remédios, boa-vontade para acompanhá-lo e que tivesse um corpo ainda firme para as horas vagas.

Logo de início, era 'querido' pra cá, 'querida' pra lá, uma gentileza de fazer gosto. Na rua, era tanto respeito que os desatentos até imaginavam se tratar de pai e filha.

O primeiro ano se passou, Gilberto era todo viço e saúde. Velho, sim, mas ainda bem apanhado. O peito empertigado, como nos tempos de militar. Caminhava pela manhã na orla, seguia para a aula de tai chi chuan com o grupo da dança. Antes de entrar na água, o olhar no horizonte, o sinal da cruz, o mergulho na água do mar e ele estava pronto para aproveitar a vida, a bênção de mais um dia.

Com Juçara as coisas foram se modificando. Depois que abandonou o balcão da confeitaria, o peso do tempo passou a ser cada vez mais denso, mais cruel. Atravessar um dia e depois outro, e ainda outros tantos naquelas obrigações domésticas que se multiplicavam de modo assombroso: a comida meticulosamente preparada; a planilha de remédios e injeções a ser observada e cumprida com rigor. Gilberto queria tudo limpo e impecável, feito num quartel. Suas doenças não admitiam flexibilidades.

Ela ainda o tratava bem, mesmo após dois anos de casados. Entretanto, a dedicação diminuíra visivelmente. Pudera. Não imaginava que ele seria ainda tão ativo, tão forte. Às tardes, vez por outra, ele exigia dela: tira a roupa, agora senta aqui no meu colo, deixa eu ver você. E mexia no corpo dela com uma luxúria que dava repulsa.

Cinco anos desde que Juçara saíra da quitinete do Leme e às vezes se pegava pensando em voltar para lá, voltar ao trabalho de salário-mínimo. Chorava escondida, de raiva. Ainda daria para voltar atrás? Com 52 anos, era inútil perder-se em divagações: não havia como deixar tantos benefícios nas suas condições, ele logo morreria e a pensão era de general, com direito ao Hospital do Exército.

Gilberto nem dava por si. Notou que se comprazia em vê-la relutar com a coisa, com seus pedidos, suas brincadeiras obscenas, gostava de impôr sua vontade. Ora, o acerto entre os dois foi claro e ele tinha direito à contrapartida. O trato. Não perguntou do passado, da idade, dos  atributos. Prometeu pensão, benefícios, o apartamento e, quando ela largou a confeitaria, indenizava mensalmente o salário. A segurança. Assim que ele morresse, tudo seria dela. Da mesada para a pensão integral. Estaria garantida para o resto da vida, ele repetia a frase, várias vezes, reafirmando o excelente negócio. E exigia tratamento à altura da sua benevolência.

Dia após dia, o exercício, a caminhada, o tai chi, o olhar para o horizonte, o pedido de mais uma bênção, o mergulho no mar. Ano após ano, ouvir as mesmas orientações de que tudo deveria ser fresco, descer ao hortifruti, voltar à cozinha, descascar e picar os legumes, ferver a sopa enquanto tomasse banho. Tudo igual. Ele chegaria invariavelmente às 12h30. Tomaria a sopa e talvez dormisse, ou talvez brincasse daquelas suas brincadeiras estúpidas com ela, na penumbra. Ela torcia para que dormisse. Até para que morresse, Deus perdoe.

Sete anos de casamento. Gilberto feliz e disposto para a vida. Mais controlador. Juçara mais perua. Mais azeda. Às vezes de fato morria alguém conhecido e ela mal disfarçava o interesse ávido na história: “Morreu? Pena… De quê?”. Esperava que alguém dissesse as palavras mágicas – diabetes, hipertensão. Acontece que eram sempre outras as doenças que matavam.

“Oitenta e cinco anos e ele ainda controla o cartão de crédito. Imagina isso? Aquele velho sovina. Todo corado de sol, o pão-duro”, Juçara comentava com as manicures, com as atendentes do mercado e da confeitaria. Com ele, já se perdera toda a tolerância, toda a caridade. Ela não tolerava mais. “Tira a roupa. Tira tudo, eu quero te ver. Agora vem cá”. Envelhecendo junto com aquele velho viçoso. As saliências dele, insuportáveis. Iria com ele até o final. Mas o final não chegava nunca. Tinha noites em que acordava suada, zonza, sonhava que morria e seu espírito olhava o velho, vivinho, bem velho e encarquilhado, rindo desabrido de tudo.

Quanto maior a impaciência dela, mais longe ele ia. Mais abusado. Mais grosso. Não respeitava seus quase 60 anos. Ela quase idosa, passando por aquilo. E o pior é que não contava com mais ninguém, só com aquele velho.

Juçara tomou uma decisão definitiva quando Gilberto passou dos limites e exibiu uns brinquedos que trouxe da rua, da loja de saliência que abriu na galeria. Usou aquilo nela, a tarde toda, fez com que suportasse cada infâmia. Ele ameaçou com o advogado. O divórcio em cartório sai no mesmo dia, ele repetia. Invento coisas na delegacia do idoso, dizia, lascivo. Falava isso enquanto a masturbava.

No dia seguinte mesmo, saiu cedo, nem pôs o café-da-manhã. A caminho do hortifruti, comprou um veneno de rato. Pronto. Mata e seca. No camelô. Deixou na despensa, misturou na Maisena que serviria para o mingau da noite, ela o mataria antes que ele a enlouquecesse. Naquele dia ficou mais silenciosa. Precisava pensar como explicaria o envenenamento. Diria que ele pegou a caixa errada. Não, melhor, diria que ele estava gagá, variando da idéia. Ou que quis se matar.

Gilberto, indignado, caminhava sem parar de pensar, todo dia. Naquele, em particular, estava irritado ao extremo com a audácia dela. Sair sem pôr o café-da-manhã. Quem ela pensa que é? Só quer o meu dinheiro, a vaca. Era boa pra mim, mas agora… Só pede, pede, pede. O dinheiro não basta. Não faz mais nada direito, quer mandar em mim. Grossa. Ladra. Rouba até os trocados na minha bermuda.  Faz uma sopa horrível, gordurosa, perde a hora dos remédios. Quer que eu morra, a vadia. Eu já notei o jeito sorrateiro. Me oferecendo azeite pra entupir as artérias. E se recusa a ir ao baile. Se tranca no banheiro. Se recusa a me dar um pouco de prazer nessa vida. Nesse pouco que me resta. A vadia vai ver. Acha que eu vou morrer, mas ela morre comigo.

Ela não ficou em casa à tarde. Saiu antes das 12h30. Deixou a sopa feita e um recado seco: fui ao médico. Que médico? Médico nenhum, ele pensava, bicho vai é ao veterinário. Teve gana de meter uma faca nela, no pescoço dela, pensou em obrigá-la a fazer coisas, de faca na garganta. Riu com a idéia. Pegou uma das facas cegas da cozinha e guardou debaixo do travesseiro. Esperaria a noite. Ela não perde por esperar. Quer que eu morra? Ela morre junto.

Assim que ela chegou, ele na poltrona, a novela das sete passava na TV. “Oi, bem. Fiz os exames logo após a consulta. Aí demorei.” Ele nem respondeu. “Vou fazer já seu mingau.” Ela estranhou o silêncio, mas não se arriscou a dizer mais nada. Cozinhou o mingau do chumbinho, pôs umas pitadas de canela para disfarçar a cor. Mata e seca. De hoje não passa.

“O mingau está na mesa. Vou tomar meu banho.” Ele, silencioso, na poltrona. Juçara espiou a sala: a cabeça de Gilberto acomodada no espaldar de um jeito estranho, pendia levemente para frente. Ela foi chegando mais perto, com o pescoço espichado.

“Rá, o velho morreu!” Os olhos abertos, a boca aberta, não havia dúvida. Imediatamente, levou o prato de mingau e a panela para o banheiro. Pôs tudo no sanitário e deu descarga. “Rá, o velho morreu! Nem acredito.” Telefonou, na seqüência, para o serviço de Auxílio-Funeral. Eles cuidariam de tudo em dois dias. Enterro amanhã à tarde. “Rá!” Juçara sentia um alvoroço no peito. Muitas providências: o seguro de vida, a habilitação na pensão por morte. Nem dormiu. Oh, felicidade suprema, Deus olhara por ela. Os olhos fundos da noite em claro. Imaginariam sua dor. O vestido usado nos enterros. A renda para a cabeça, os óculos pretos. “Rá! Só mais um dia, e minha sina acaba.”

O Auxílio-Funeral tirou o corpo do apartamento, tratou de tudo. Aneurisma. Morte instantânea, indolor. Morreu em paz, eles disseram. Marcaram a hora em que ela desceria do apartamento e seguiria no carro fúnebre, até o Cemitério São João Batista. O mausoléu da família era lá. Gilberto só deixara sobrinhos. Era estéril.

No dia seguinte, Juçara entrou no carro, à hora marcada. Fingida, soluçou duas ou três vezes e depois perguntou a que horas terminaria o enterro. Quieta, pensava em ir ao shopping, depois jantaria no restaurante mais esnobe da cidade. Decidida: chega de sopa. Enquanto isso, segurava um terço, contava as horas nas contas pretas. O motorista, discreto, calculava que ela quisesse se recolher, na saudade, no nojo, na solidão. Foi então que ela falou, pausada, controlada, sem motivo, estilhaçando o silêncio mortal no interior do carro: “Ele me odiava. Queria me matar. Não queria que eu recebesse a herança. Descobri tudo. Achei uma faca debaixo do travesseiro.”

O motorista olhou para ela, estupefato, distraiu-se por um momento tentando divisar a expressão de seu rosto por trás da renda negra, e freou o carro no cruzamento. Foi o suficiente para que um ônibus o acertasse em cheio, pela traseira. Gilberto, junto com o caixão, foi lançado à frente, atingindo a nuca de Juçara. Morte indolor, instantânea, eles disseram. Foi para junto de seu amor.

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(p.s.: conto de ficção – qualquer semelhança, é mera coincidência)

 

Polícia 10/11/2008 – 12:28

Mulher morre ao ser atingida pelo caixão do marido
Agência Estado

Uma mulher de 67 anos morreu após ser atingida pelo caixão onde estava seu marido, na madrugada de hoje, em Tapes, no Rio Grande do Sul. Segundo a Polícia Rodoviária Estadual, Marciana da Silva Barcelos estava no banco ao lado do motorista no veículo da funerária, que transportava a urna de Tapes, onde o casal morava seguindo para Alvorada, onde o marido seria enterrado.

Um veículo de passeio colidiu na traseira do carro da funerária, na Rodovia RS-717, na região de Tapes, deslocando o caixão para frente, que acabou atingindo a vítima. Ainda não há informação se a morte ocorreu no local ou se ela chegou a ser levada a um hospital.

O assassinato de Barack Obama

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Texto gentilmente cedido pelo autor
Affonso Romano de Sant'Anna

Há algo grave e sintomático ocorrendo nas conversas e circulando na internet e forçoso é trazer isto à tona, até mesmo para furar o tumor e evitar a tragédia. Trata-se do imaginado assassinato de Barack Obama, negro de origem africana que concorre pelos democratas à presidência dos Estados Unidos.

A primeira vez que ouvi referência a esse "assassinato anunciado", pre/visto, ainda que não desejável por meu interlocutor, foi numa conversa de vários intelectuais, na qual, um cientista social de renome internacional em meio a uma festa, levantou a hipótese de que Barack Obama ia ser assassinado, só não se sabia se seria antes ou depois da eleição.

A questão era posta de maneira axiomática, em tom de tragédia grega. Diante das características conservadoras e reacionárias de grande parte do povo norte-americano, não havia outra hipótese. Algum alucinado, comandado ou não pela CIA ou pela Ku-Klux-Kan, ou então, num complô onde entraria de tudo, tanto terroristas islâmicos quanto ultra conservadores da linha Bush, acabaria por executar um gesto que está no inconsciente da "América profunda".

Alguém também comentou que há até uma bolsa de apostas em Londres anotando os lances desse jogo fatal. E para piorar as coisas, ainda nesses dias, recebi pelo email esse texto que transcrevo e jogo logo nos jornais de papel para ajudar a fazer a punção nessa ferida ideológica. Eis o texto, que exercita duplamente o "humor negro":
 
"Lá estava o bom e velho São Pedro,  batendo ponto nos Portais do Paraíso, verificando a fila de pessoas  que esperavam para entrar nos Céus. Ele pergunta ao próximo  da fila:
– E aí, quem é você e o que fazia na  Terra?
– Meu nome é Barack Obama e eu fui o primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos!
– Dos Estados Unidos? Um presidente negro? Você está me gozando? Quando aconteceu isso?
E Obama:
– Cerca de 20 minutos atrás…"
  
Leio isto e penso em duas coisas. O inconsciente dos países e culturas é mais óbvio do que se pensa. Daí termos que prever certas coisas para evitá-las. No Brasil, uma das constantes do nosso inconsciente  é a noção de que aqui, certas coisas "não vão dar certo". Vendo, por exemplo, aquela fantástica abertura dos jogos em Pequim, aquela torre em que se movimentavam bailarinos e atletas formando rosas, correndo  de baixo para cima e girando fantasticamente, o brasileiro se dizia: se fosse aqui não ia dar certo, alguém ia cair, a luz ia faltar, algo ia desabar.

Pois nos Estados Unidos é esse pânico diante de um negro, de um latino, de um árabe ou qualquer marciano. E como é uma sociedade que se vangloria de dizer as coisas como são, de não ficar fazendo circunlóquios, lá a verdade não é mestiça, o branco é branco e preto é preto. Daí aquela expressão:"don't beat around de bush" (não fique rodeando, batendo ao redor da moita, desça logo o cacete). Nunca um "bush" foi tão autorizado pelo inconsciente social.

Deveria eu ter tocado publicamente neste assunto?  Teriam os jornais americanos a coragem de tal abordagem, divulgar publicamente esse humor nigérrimo? Temeriam despertar a fúria criminosa de grupos e indivíduos? Ou será que não  escamoteando a questão, mas denunciando-a e podemos ultrapassá-la, fazendo com que o veneno cure o próprio veneno?

Os antigos conheciam um tipo de morte virtual chamada " morte em efígie". Ao invés de matar uma pessoa, destruíam sua efígie, sua imagem. Pois Barack Obama tem que lutar contra esses dois tipos de morte, a virtual e a real.

(*) texto publicado nos Jornais ESTADO DE MINAS e CORREIO BRAZILIENSE, em 07.09.2008.

Posologia

Mundo Mundano e os Quatro Cantos do Mundo

Este é um dos minicontos selecionados para a coletânea “Mundo Mundano e os 4 cantos do mundo”

Engolia de um tudo. Drágeas, bolotas, comprimidos partidos, cápsulas gelatinosas, lenitivos em pó, gotas, borrifos e xaropes. Tudo descia goela abaixo, fazendo ânsia.
Drogas ministradas em horas certas, copos e mais copos de água tépida que tiravam sua fome e amargavam seu futuro. Remédios consumidos, naquela boca que também ia se consumindo.
Suas dores não passariam.
Não descobriram ainda a cura para a falta.

Cansei de acreditar

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Há uma época em que deixamos de acreditar em Papai Noel, príncipe encantado, Coelho da Páscoa, final feliz, essas coisas. Ingênuos, infantis, somos tomados pela melancolia da constatação de que não existem presentes gratuitos, exceto os de papai e mamãe, vovô e vovó para quem tem sorte.

Mara já havia deixado de acreditar nisso e em outras coisas, naquelas crendices que se abatem como febre no povo, um consenso que se dissemina feito doença e se alastra, pernicioso, fazendo inumeradas vítimas, ano após ano.

Aconteceu da primeira vez quando, na lua de fogo que se abatia na cidade em janeiro, foi experimentar calça jeans em Vilar dos Teles. Desfalecida, foi obrigada pela mãe a entrar em cabines imundas, vestir miríades de calças largas, de gancho pequeno, de cintura apertada, de quadris frouxos, que nunca lhe caberiam. Teve de remexer os trajes de roupa feito carente em arraiá beneficente, entre montanhas de tecidos espalhados por grandes gôndolas, disputando a proximidade do balcão. Era um entrar e sair insano em galpões, agarrada e arrastada pelos braços na busca do impossível, debaixo do olhar esgazeado das vendedoras.

Depois, houve quem dissesse que Friburgo era a meca das roupas íntimas. E lá iria a procurar algum conjunto de sutiã e calcinha que fizessem par um com o outro, distinguir no olhar para ver se coincidia a trama da renda, a tonalidade da coloração da lycra, o tamanho de cima com o de baixo, a padronagem da estampa de florzinha. Ficava tudo misturado, as calcinhas espandongadas e reviradas naquela desolação. O pagamento era sempre feito a dinheiro, para que não houvesse a menor hipótese de retorno do cliente para qualquer reclame de uma costura cuspida, de uma lycra esgarçada.

A fé na dica era maior. E ela iria, outra vez, para Petrópolis, encontrar algum moletom na Rua Teresa e experimentar, no calor do sol de serra, roupas de um frio que nunca chegaria na beira do mar. Mulheres desesperadas a atropelavam com gigantes sacolas de lona preta, atravessavam sua frente e dirigiam-se à lojista para comprar tudo no atacado e as vendedoras sequer atenderiam a menina coquete na busca infrutífera por outra calça de moletom que não tivesse cor de tijolo.

Não, isso não foi suficiente. Foram necessárias mais e mais experiências numa crença que não se abatia. Haveria de existir esse lugar mítico onde as pessoas pudessem comprar diretamente no fornecedor as coisas mais baratas que a média, fazendo aquele 'negócio da China' para comentar depois, gloriosa, no trabalho.

E ela seguia, novamente crédula, perder o sábado num Decor da vida comprar um conjunto de sofás que nunca chegaria, sem o direito sequer de ingressar na Justiça pedindo os direitos contra a loja falida de Canela, nos confins do Rio Grande. Pernas e mais pernas, a orientação era ir de tênis para cobrir toda a metragem do enorme pátio de móveis de todo o tipo, misturados sem razão, para um olhar que nunca distinguiria num panorama de milhares de itens desencontrados, o cafona do chique, o vagabundo do bom.

A Rua Honório também era uma dessas lendas: tudo mais barato, móveis de qualidade, atendimento de categoria. Poucas foram as que saíram ilesas desse rastilho de marketing fuleiro.

Começou a imaginar o motivo pelo qual essas dicas de meia pataca conseguiam circular no imaginário coletivo. O imaginário coletivo precisava crer na esperteza. E na esperteza, a maioria caía e se espatifava no chão. Como ela, Mara. Como será que a lenda se propagava sem internet? Esse era um dos mistérios mais assombrosos e insolúveis dos anos 80. No fundo, no fundo, ela passou a achar que era tudo mentira. Feito filho de amiga que nunca fica doente.

Claro, na década de 90 houve a época do Top Fashion Bazar. De fato, tudo com 70 (eu disse setenta!) porcento de desconto, mostrando que a criatura que compra no valor integral praticado pela loja é uma completa idiota, mãe de família descurada,  despreparada, frívola e pródiga no gasto do dinheiro suado das economias familiares de classe média, já que aquele item de roupa poderá ser adquirido, com alguma paciência e muito sofrimento, por 1/3 do valor inicialmente proposto.

Chega-se à finesse da Barra da Tijuca, 'dessa vez não é boato e eu vou me dar bem', pensa a insistente Mara que precisava desesperadamente de alguma fantasia – qualquer uma que fosse – para suavizar a vida. Até que deu para encontrar as peças com desconto: sungas amarelo-limão, nos tamanhos XXG e PP, de marca boa, marca de grife, camisetas laranja-reluzente com viés verde, daquela loja careira, saindo por uma bagatela. Especialmente se excluir o gasto com a gasolina, a multa no pardal do caminho, o estacionamento do shopping de bacana, ignorando-se ainda a fila para entrar na loja, com direito a um leão-de-chácara para fiscalizar se as madames não roubariam nada naquela confusão de mulheres e roupas.

A última vez que ela acreditou foi na dica de uma rua, uma rua inteira, com itens de decoração num preço ótimo e que eram revendidos em shoppings por dez vezes esse valor, dizia a lenda. O detalhe: a rua era em Vigário Geral, na beira da avenida Brasil, cercada de favelas infernais por todos os lados. Economizar dezenas de reais seria uma boa, isso já daria um jantar chique em Ipanema. Arriscou a vida para ler na empena de um prédio: "Cuidado com suas crianças! Não deixem as crianças sozinhas!" e soltou um suspiro de alívio e vontade de voltar para casa.

Faz duas semanas, e soube que chamaram a Mara para um depósito de roupas e bolsas, num lugar perdido da zona portuária. Pechinchas e mais pechinchas. Descontos imperdíveis. Roupas de grife vendidas por metade do preço. Ela fincou o pé:

"Quer saber? Não vou. De jeito nenhum. Não quero. Cansei. Não acredito mais. Nem em Papai Noel, nem no Coelho da Páscoa, muito menos em negócio da China.
Negócio da China, de verdade, só fazendo como o Marco Polo e viajando pra lá."

Mara amadurecia e abandonava as utopias da pobreza.

Timesheet

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06h50. o alarme toca.
07h00. o alarme toca.
07h10. o alarme toca.
07h20. um movimento desgovernado agita o ar do quarto; desligo involuntariamente o relógio.
07h30. o alarme não toca; felicidade, enfim.
07h40. ele abre o primeiro olho.
07h50. ele abre o segundo olho para ver a hora; a hora!
08h00. a culpa recai sobre o inconsciente do corpo, uma discussão infrutífera é interrompida pelo toque da campainha; a Lu chegou; vai você; eu nada; então eu vou de camisola abrir o portão da rua; o argumento final.
08h10. ele vai a abrir a porta, enquanto recobro os movimentos dos membros, avalio a magnitude da dor que assola as costas, reparo na pintura impressionista de verdes e azuis que atravessam a janela.
08h20. ele volta; manso; amor, levanta, olha a hora, você não quer chegar cedo?
08h30. me aconchego no cheiro da manhã, peço tudo, até que o sono desista de mim.
08h40. desço para um café-da-manhã rápido, entrecortado; vixe, olha a hora!
08h50. a zoeira da casa acorda a miúda; ela desce, seus cabelos sem rumo, mal humorada; quer colo, leite, mamadeira, carinhos entre meu chá, jornal e iogurte.
09h00. tá tarde, tá tarde, me larga, menina, vou pro banho.
09h10. o banho cura as dores, amorna a pele, traz as intrincadas reflexões do dia: E aí? Qual a boa de hoje?
09h20. a mais velha acorda, sem palavras, no sorriso espichado e imotivado da manhã.
09h30. tô pronta, assim vocês me atrasam.
09h40. no carro, engarrafada, viro a Jeannie; ele escuta notícias.
09h50. beijo, amor, me liga à tarde; eu entro no trabalho.
10h00. café, pleeeaaaaaasse.
10h10. o computador ainda está iniciando.
10h20. o computador trava.
10h30. a máquina deslancha, direto para os emails.
10h40. arrastada, olho para o processo que sobrou de ontem; ele me olha de volta, desafiador; vai encarar?
10h50. uma coragem me toma de assalto e faço um harakiri nele.
11h00. e então? ele chega, um vendaval dentro da sala, o chefe; o papo básico da manhã.
11h10. continuo com o meu sashimi jurídico; tá difícil aí, ele pergunta, me dá um pra eu fazer; não, eu quase minto.
11h20. o telefone toca; a informática; cadê a Bia? ela só chega mais tarde, liga depois.
11h30. não, eu não vou abrir o computador dela, já disse; liga mais tarde, meia-hora.

11h40. o Cristo lá fora, testemunhando tudo: barriga que ronca, água e café pra enganar, meu radiador tá seco.
11h50. vou almoçar! bom apetite… e o tufão sai da sala.
12h00. o telefone, de novo: oi, mãe, você lembrou de deixar o dinheiro do transporte?
12h10. ai, filha, princesa, me lembra de noite; fujo na tela para conferir os hits no site (tradução: conferir quantas criaturas ajudaram meu contador a fingir que eu sou lida por mais do que as 50 cabeças do pessoal de casa).
12h20. cheguei! tá tudo bem? ela chega, preocupada com a barra; tá calmo, eu respondo; afff.
12h30. a informática ligou, o pessoal da administração, o da limpeza, o cara do transporte, a menina da representação; ah, e a doidinha também.
12h40. processos prontos, outros ainda esperam; mas a fome, não.
12h50. e aí? o vendaval volta, com sua algazarra de chefe.
13h00. tá tudo pronto; desço pra comer: o elevador cheio, aqueles olhares vazios.
13h10. a comida remexida de sempre; eu queria sentar, pedir uma quiche com salada e vinagre balsâmico para um garçom francês, de guardanapo no braço, oui, madame; taça de vinho, nem pensar; entro na fila de pesar.
13h20. eu só quero 'meus direito'! frango grelhado com infelizes legumes; como com a voracidade elegante da dieta; sorte que o restaurante é bom.
13h30. fila pra pagar; prefiro a fila de dinheiro, a fila do cartão enche o saco.
13h40. vou passear num reduto do imponderável, onde tudo é permitido, o lugar em que quase todas as figuras penais são cometidas diariamente e todo mundo acha ótimo.
13h50. minha rainha, o que vai ser pra hoje? quero o de sempre, jujuba; já não me importo com a rotina, gosto da repetição, nutro hábitos indecentes.
14h00. chego distribuindo balas; ouço a pergunta: quem trepou no sofá?
14h10. o quê????? meu HD pára de piscar por uns minutos; ah, bom, tem uma marca de sapato no sofá preto da sala do chefe.
14h20. porra, liga para a limpeza; assim não dá pedal!
14h30. olho o mail cheio e vou lendo e respondendo e escrevendo, escrevendo e respondendo e lendo.
14h40. cadê os processos? liga lá pra baixo.
14h50. ligo lá pra baixo: xi, hoje vai demorar.
15h00. liga de novo: será que vem muito?
15h10. ela volta do almoço. Tudo quieto?
15h20. ihh, alguém trepou no sofá do chefe, ele tá uma arara; liga lá pra baixo.
15h30. que absurdo, essa gente…
15h40. telefono de saudade: oi, docinho, já voltou do almoço? qual é a boa?
15h50. nada, tudo na mesma.
16h00. chegaram os processos, vou ter que olhar isso.
16h10. outro harakiri processual.
16h20. a tarde desce, escorrida por entre as persianas, o sol entra de lado, a sala esfria.
16h30. o sono vai me arrebatando entre as milhares de letras; mais um dia me abandona.
16h40. aleluia! o café.
16h50. o cara da informática entra na sala, quer ver o defeito na impressora.
17h00. mas isso é hora! preciso trabalhar agora, não dá para parar. volta só depois do cigarro.
17h10. corro nas teclas, eu e o computador somos um só, uma máquina para permitir que a engrenagem toda continue funcionando a contento, como é para bem de todos e para a felicidade geral da nação.
17h20. o chefe ao lado, no silêncio dos cliques de mouse, na mesma fé computadorizada.
17h30. terminou?
17h40. tô quase, falta pouco.
17h50. pronto, pode autografar.
18h00. queridas, vou indo, amanhã eu chego cedo.
18h10. beleza, vai na paz.
18h20. sobrou só um processo; ele me olha, safado; você vai me pegar hoje?
18h30. eu já sem tesão: não pego mais nem resfriado na sala gelada.
18h40. um ronco esquisito me lembra da jujuba.
18h50. que horas eu te pego, hoje?
19h00. ah, sei lá, mais tarde, hoje tô cumprindo carga horária.
19h10. então, dez pras oito aí embaixo?
19h20. beleza, navego mais um pouco.
19h30. o Cristo tá iluminado, noite idílica, o funk da rua incita o corpo.
19h40. já perdi o dia, a tarde, a noite eu não perco.
19h50. um buzinaço; tô descendo. oi, beijo, amor.
20h00. trânsito; eu olho meus olhos vermelhos no espelhinho do pára-sol.
20h10. como foi o dia? o papinho básico da volta.
20h20. o jantar me espera em cima do fogão.
20h30. devoro folhas como se fossem manjares.
20h40. crianças, tudo certo?
20h50. sai da televisão, menina. vai estudar.
21h00. remédio, higiene, cama.
21h10. mãe, me põe pra dormir hoje?
21h20. hoje não vai dar para enganar, vou pra cama com elas.
21h30. eu durmo enquanto elas brincam.
21h40. ele me salva: você não disse que ia terminar o livro? a gente não ia conversar mais tarde? – conversa, no sentido bíblico.
21h50. elas não dormem.
22h00. gente, olha a hora, agora é pra dormir.
22h10. querido, vê lá, elas não dormem.
22h20. ele assume o motim, enquanto eu pego no computador.
22h30. atualizo as conversas com amigos, escrevo o que pensava entre o sono e a realidade.
22h40. ele volta: viu? comigo elas dormem fácil, você agita as meninas; tá bom, tá bom, eu sei.
22h50. bota uma música boa aí, chegou minha vez.
23h00. …
23h10. …
23h20. …
23h30. …
23h40. …
23h50. a música boa me acorda, ainda trêmula.
00h00. escrever é fácil, o cérebro pensa claro na escuridão.
00h10. encontro amigos notívagos online, o silêncio se parte no dedilhar do teclado.
00h20. eu e ela, a tela, somos um novamente.
00h30. o vento faz um assobio bonito lá fora.
00h40. ele dorme inocente, agora; os contornos iluminados pela luz fraca da tela acesa.
00h50. ouço os mínimos sons, confiro se as portas estão fechadas, sou um fantasma pela casa.
01h00. esse tesão que vai e volta e meus sonos entrecortados assustam o cansaço; vou ficando.
01h10. escrevo histórias como se fosse outra.
01h20. palavras jorram, num gozo solitário.
01h30. leio e releio, corto, recorto, colo, ajeito.
01h40. minha hora de delícias, é isso.
01h50. pronto, limpei o meu hd, agora posso ir dormir.
02h00. ai, mas não sem antes olhar os sites da galera.
02h10. espio todo mundo, na alta madrugada, completamente voyeur, sinto saudades de tanta gente.
02h20. abro de novo o mail, preciso mandar essas saudades que transbordam.
02h30. o sono chega, arrebatando pelas costas.
02h40. lindo, levanta, vamos dormir na cama.
02h50. deito, algumas tristezas ainda me encontram.
03h00. sem motivo, esses vazios… ou talvez tenham motivo, sim.
03h10. a vida é boa demais para se fechar os olhos.




06h50. o alarme toca.

it's time, shit.

A implosão da mentira

A pedido do querido Mestre Affonso Romano de Sant'Anna, divulgo a versão correta e verdadeira de seu poema A implosão da mentira, publicado originalmente no JB durante a última ditadura, em 1984, quando do episódio do RioCentro. Atualmente, a poesia pode ser encontrada no livro 'Poesia Reunida', Editora L&PM, v. 2. A ilustração ficou por minha conta, extraída de atuleirus.weblog.com.pt.

A Implosão da Mentira

– Affonso Romano de Sant’ Anna

Fragmento 1 Image

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial?mente,
mente partidária?mente,
mente incivil?mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constróem um país
de mentira
-diária/mente.

Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente,
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partin-
do do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem,
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores

cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.