o corpo sobre tudo


Crouched, Claus Heinecke

o corpo sobretudo

limite e fronteira

filtro pó estrada

caminho trincheira

o corpo sobre o corpo

novo

onde se alcança

outro

onde suporta

chão

onde se cala

fogueira

silêncio. sobretudo quando

o corpo jaz

sobre a poeira

sobre a chama toda

sobre a aurora silenciosa

alvissareira

de uma madrugada de junho.

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O miolo das nuvens

 

às vezes
numa névoa de cinzas
dois pequenos fachos de luz
te furam o miolo das nuvens
e sobressaem, quentes
e se acendem, soberanos
quase felizes.

às vezes, muito às vezes
– ninguém imaginaria –
esses jatos de brilho
se espalham…iluminam…se misturam
e se despedem assim
– como tudo sempre se despede –
um pouco só.

à areia
queimada e tingida
barrenta e desalinhada
resta apenas soprar de novo
e de novo e de novo
até apagar rastros
ou, de um jeito outro
esperar passar
mais uma névoa cinzenta.

quem sabe outro facho vem te furar o miolo das nuvens?

Seriam garças?

seriam garças?
a despirem lentamente
suas vestes
suas demoras
suas mágoas?

seriam garças?
a rodearem esperas
vertigens e voos
a enrodilharem miragens
nesse manso tempo?

seriam garças?
estampadas levemente
em vontades nuas
escondidas
nessas tuas aragens
de mudo lamento

seriam garças?
essas brancas esgarçaduras
do vento
ou apenas sou eu
entremeada
que respiro nelas?

Fucsia

se cada tom fosse uma cor
e seu semi-tom matiz diversa,
canções inteiras – sinfonias,
seriam oceanos de luz.

largas de brilho
cascateariam coloridas
salteando reflexos fucsia
desse som imenso
que somos nós.

 

arte: Annalisa Canella